Diásporas Africanas

Copyright: Ilka Boaventura Leite

A área de Diásporas Africanas congrega pesquisas que buscam correlacionar os legados africanos e os afro-brasileiros, suas práticas de resistência e afirmação identitária.

Sub-áreas:
-Artes e Tecnologias
-Políticas Linguísticas
-Movimentos e Organizações
-Filosofia e Ética

Projetos Atuais:

1 – Territórios do Axé

O projeto é resultado de um Acordo de Cooperação Técnica entre o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional- IPHAN e a Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC. O Plano aprovado visa obter um panorama das religiões de matriz africana da Grande Florianópolis, a partir dos seus próprios interlocutores, buscando perceber suas principais características sócio-históricas, linhas de ação e conformações territoriais. Este panorama será apresentado em forma de um mapeamento contendo informações quantitativas e qualitativas que possa fornecer um diagnóstico preliminar sobre a diversidade das religiões e municiar os praticantes e as instituições públicas em suas iniciativas de valorização, proteção e garantia de autonomia e liberdade de culto, segundo a Constituição Federal de 1988.

A equipe contará com profissionais de diversas áreas e campos disciplinares tais como a história, a antropologia, a geografia, a sociologia e a linguística, buscando uma interlocução com os saberes constituídos nas casas de culto e através dos mestres e praticantes, buscando registrar a memória e a história, as diversidades de crenças e práticas, a construção do espaço social, do grupo, e das práticas comunitárias, as formas de transmissão de saberes entre gerações e os falares africanos trazidos pelos seus fundadores. O projeto não visa apreender e nem discutir os fundamentos religiosos das religiões africanas, mas, sim, busca valorizar a cultura religiosa aí consolidada, para compreender, respeitar, preservar e manter sua presença, riqueza e criatividade na sociedade catarinense.

Coordenação: Ilka Boaventura Leite (Profa.Antropologia)

Docentes da UFSC: 

Nazareno José de Campos (Prof.Geografia)

Cristine Severo Gorski (Prof.Linguística)

Amurabi Pereira Oliveira (Prof. Sociologia e Ciência Política)

Henrique Espada (Prof.História)

Pesquisadores e apoio técnico: 

Alexandra Elisa Vieira Alencar (Pesq. NUER Antropologia), Bruno M. Reinhardt (Pesq. NUER Antropologia), Danielle Souza (Mestranda IPHAN), Yasser Socarras (Pesq. NUER/ Cineasta), Marliese Vicenzi (Coord. Pesquisa-Cientista Social), José Felipe Silva (Desenvolvedor WEB), Daniele Climaco (Téc. Admin. Fapeu), Ramiro Valdez (bolsista grad.antropologia), Julia Bercovich (bolsista grad.antropologia), Luiz Fernando Mendes Almeida (bolsista grad.antropologia), Raiane Cunha (bolsista grad. geografia), Ana Eltermann (bolsista grad. linguistica), Josiana Carvalho (bolsista grad.história), Patricia Marcondes (Est. De pesquisa UFSC), Leonardo Ramos (voluntário grad.antropologia), Carla Franceline Galieta (voluntária grad.antropologia), Yérsia Souza (voluntária pós.antropologia), Carla Brito Sousa Ribeiro (voluntária pós.antropologia), Franco Delatorre (voluntário pós.antropologia), Díjna Torres (voluntária pós.antropologia).

Consultores: 

Vanda Pinedo (Forum de Religioes Africanas), Apolonio A. da Silva (UNIAFRO), Diana Brown (Bard College NY USA), Helio Silva (prof. Visitante UFSC), Alberto Groismann (Depart. De antropologia UFSC), Regina Helena Meireles Santiago (IPHAN), Valmir Brito (mestre de Capoeira), Inacio Dias de Andrade (Aplicação UFSC), Rosa Azevedo Marin  (UFPA).

2 – É de baque virado: Diálogos com os mestres de maracatu do Recife (PE) e as políticas de patrimônio do Estado
Doutoranda: Alexandra Eliza Vieira Alencar
Orientadora: Dra. Ilka Boaventura Leite
Resumo: A pesquisa pretende estudar o que é a prática cultural do maracatu de baque virado do Recife (PE), seus mestres, a partir de novas dinâmicas culturais, como as políticas públicas de patrimonialização.

3 – Etnicidades e sagrado: êxodos e identidades na Missa dos Quilombos
Doutorando: Augusto Marcos Fagundes Oliveira
Orientadora: Dra. Ilka Boaventura Leite
Resumo: Tomando como base o texto/contexto da Missa dos Quilombos, pretende-se refletir sobre como aí se constroem identidades negras, o diálogo estabelecido entre a diáspora e a ideia cristã de êxodo, assim como o diálogo inter-religioso do que seriam as matrizes católicas e africana/afro-brasileira. Objetiva-se analisar a construção das identidades étnicas no discurso presente na Missa. Descrever os modelos identitários, concepções e construção dialógica de Sagrado atualizados na Missa; analisar as dimensões simbólicas da interculturalidade nas suas múltiplas relações com a construção identitária: organizacional, institucional e político-ideológico. Analisar a interculturalidade missal como trânsito e zona tensiva na própria construção Católica de Identidade Negra. Serão consultadas fontes escritas, fílmicas, imagéticas e sonoras disponíveis sobre a Missa tendo como espaço cênico dois contextos onde a Missa se vincula: o católico institucional e o catolicismo popular. Ambos vinculados a teias de articulações sociais, o Institucional do Concílio do Vaticano II, com a profusão de Pastorais do Negro, e a Declaração Dominus Iesus; o popular abrangendo as lutas de afirmação envolvendo memória, religião e cultura, também dialogando com a relação raça/etnia e movimentos sociais. Toma-se como premissa a diáspora africana aí revisitada como elemento de ressignificação do êxodo no seu sentido religioso.

4 – Ao som do Ijexá: Afirmação Política e Expressão Religiosa nos Afoxés de Recife-PE
Mestranda: Gabriella Silva de Souza
Orientadora: Dra. Maria Eugenia Dominguez
Resumo: Tendo como foco as práticas do Afoxé em Recife e Olinda, pretende-se refletir, nas dinâmicas atuais, os processos de construções e expressões identitárias e os sentidos atribuídos à cultura negra em Pernambuco. As reflexões acerca das noções de cultura negra ou práticas culturais negras na diáspora são abordagens que norteiam o presente trabalho, uma vez que evidenciam os processos de ressignificações desenvolvidos pelos praticantes do Afoxé, as suas organizações e mobilizações em meio às práticas religiosas, bem como depreender as diversas linguagens, expressões e reivindicações contidas nas noções produzidas sobre cultura negra em âmbito local.

5 – ENCANTOS EXTRAMUROS – Estudantes Africanos: (Des)Encantos na Jornada Acadêmica
Mestranda: Juliana Akemi Andrade Okawati
Orientadora: Dra. Ilka Boaventura Leite
Resumo: Atualmente, jovens estudantes africanos ultrapassam as fronteiras territoriais, motivados pela formação acadêmica nas Instituições de Ensino Superior do Brasil. A política externa que possibilita esse intercâmbio tem como objetivo central a capacitação de recursos humanos que poderão contribuir para o desenvolvimento dos países de origem desses estudantes. Nesse cenário, busca-se refletir sobre os “encantos” e “desencantos” encontrados nessa intensa jornada que implica em anos de vivência no Brasil, em constante contraste com outros grupos étnicos pertencentes a diferentes culturas e localidades. Para compreensão do processo de mobilidade e das transfigurações identitárias decorrentes deste, reflete-se sobre os “(Des)Encantos Extramuros” encontrados pelos estudantes africanos durante essa trajetória de formação até o previsto retorno as “suas Áfricas”.

6 – “POSSO TOCAR NO SEU CABELO?”  ENTRE O “LISO” E O “NATURAL”: TRANSIÇÃO CAPILAR, UMA (RE)CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA?
Mestranda: Larisse Louise Pontes
Orientadora: Dra. Ilka Boaventura Leite
O cabelo é uma das partes do corpo que mais se encontra exposta na cultura ocidental. Elemento que carrega uma forte carga identitária e preocupação estética. É despendida atenção especial ao cabelo por questões estéticas, mas também a relação entre essa parte específica do corpo vai além. Há um conjunto de significações entre cabelo, raça, cultura e sociedade que podem nos ajudar a construir múltiplas identidades. Investigar a relação entre cabelo, raça e identidade é lidar com multiplicidades e contextos. Portanto, o principal objetivo do projeto é compreender, a partir do universo do ciberespaço e do real, o movimento “transição capilar” onde pessoas estão engajadas em parar de usar “química” no cabelo – e nesse caso, as químicas que menciono são as que têm como resultado a mudança da estrutura do fio de cabelo. Por exemplo: alisamentos, “escovas inteligentes” e “relaxantes” – e outros instrumentos para alterar o formato “original” do cabelo. O formato liso, antes objeto de desejo, não condiz com a ideologia do grupo que almeja um cabelo sem “química” e assim deixá-lo “natural”.

7 – O Reino do Bailundo: Identidade e Soberania política no contexto do Estado nacional angolano atual.
Mestrando: Marino Sungo
Orientadora: Dra. Ilka Boaventura Leite
Com o mesmo, pretendo entre outros compreender o que caracteriza no contexto atual a soberania e o poder  de um rei através do estudo do Reino do Bailundo, situado no município do Bailundo, província de Huambo, Angola.

Projetos Concluídos:

Olhares de África: Lugares e entre-lugares da arte na diáspora
Iniciado em 2006 com apoio da CAPES, e do CNPq, em 2008 e 2009, o projeto  aborda as artes visuais contemporâneas através das narrativas e imagens que contestam, reforçam e recriam uma poética visual africana e afro-brasileira. O projeto dialoga com a teoria pós-colonial, ao repensar lugares de saber, poder e representação presentes nas relações entre nações e culturas posicionadas desde o processo de colonização e descolonização. Autores como Young (2002), Journet (2002), Mirzoeff (2004) Cohen (2003)  e Bhabha (1994) constituem referências importantes e ampliam o debate sobre  tradição, modernidade, autenticidade e singularidade, encenando uma crítica aos binarismos e modos de pensar a cultura contemporânea.
A chamada ‘arte africana’ está entre aquelas categorias muitas vezes definidas como objetivas, como não resultantes e/ou decorrentes de processos de construção social, tornando-se assim altamente vulneráveis, em suas generalizações principalmente quando  utilizadas para delimitar fronteiras culturais. Os usos e procedimentos classificatórios reatualizam a carga de significados com grandes  implicações que vão do gênero à etnicidade. As classificações que orientam o olhar estético na cultura guardam suas “bagagens” diversas, não podendo ser entendidas da mesma forma em todos os lugares, embora circulem amplamente nos universos midiáticos globais. Apor exemplo, o ‘black’ ou  o ‘negro’ assume dimensões distintas nos diversos contextos, o mesmo acontecendo com o ´africano/a´. Parece  relevante hoje indagar quais imagens de África são veiculadas nos diferentes contextos e quais os discursos a elas associadas.
Busca-se, portanto, depreender as imagens que se apresentam como articulações discursivas e integram as narrativas históricas e heróicas e que tem nas artes visuais o seu ponto de ancoragem. No Brasil esta produção vem destacando-se enquanto projeções de singularidades realçadas desde um passado colonial escravista. Em Moçambique remetem ao contemporâneo, a uma forma de distanciar-se dos estereótipos de arte convencionalmente vista como primitiva ou tribal. Em Portugal, vêm sendo identificadas com o período pós-independências, pelos desdobramentos e processos reflexivos e por vezes, vista como arte da lusofonia. A relação espaço-tempo  está sendo propositalmente destacada no projeto para ampliar as possibilidades comparativas que o tema sugere.
Na última década no Brasil, ao mesmo tempo em que há um visível e crescente aumento do interesse pela África (leis que incentivam o estudo de África em forma de conteúdos didáticos e de proteção do patrimônio cultural afro-brasileiro, acordos comerciais e intercâmbios estudantis e de pesquisa científica) – prospera, de modo surpreendente, a veiculação de um conjunto de imagens que tem muito pouca ou nenhuma correspondência com a África na atualidade. Um exemplo disso é o conjunto das imagens disseminadas em programas oficiais como o “Programa Brasil Quilombola”
A chamada “diáspora africana”, nomeia e expressa o que é comumente identificado com discursos e lugares subalternos perante as ex-colônias. Moçambique passou pelo processo político de independência e socialismo de Estado e vive hoje condições decorrentes do padrão de subalternidade que vem do período colonial desdobrando-se, portanto, em condições persistentes na atualidade. As narrativas que abrangem os países chamados “lusófonos” não representam desconhecimento da diversidade de suas experiências coloniais, mas pauta-se no reconhecimento de estratégias que fazem parte das novas relações pós-independências. É o lugar da experiência de des-individualização, do restabelecimento e resgate dos vínculos sociais, por onde ocorrem as inúmeras possibilidades de contato humano, permanecendo emolduradas pelos diversos significados conferidos à vida coletiva. A diáspora, segundo Paul Gilroy (2001), é um conceito que perturba a mecânica cultural e histórica do pertencimento, altera o poder fundamental do território para determinar a identidade, ao valorizar os parentescos sub e supranacionais, histórias pós-coloniais, trajetórias e sistemas de trocas transculturais. A idéia de “diáspora negra” desenvolvida por ele abre novas possibilidades para se pensar a territorialidade e as formas de conceber pertencimentos e fronteiras culturais.  A arte, sem dúvida alguma, é um importante lugar para investigar e discutir as identidades situadas no marco da contemporaneidade.
Coordenação: Ilka Boaventura Leite
Pesquisadores de Iniciação Científica:
Milena Argenta (2007)
Márcia Irigonhê  e Carolina Peçanha (2008-2009)
Thania Cristina dos Santos (2009)
Willian Conceição (2010-2011)
Rômulo Bassi Piconi (2012-2013)
Apoio: CAPES  (2007) / CNPQ (2008-2013)

Arte Pública e Etnicidade: movimento muralista afroamericano
O mural “Wall of Respected” ,acima, situado na 43rd, Street,Chicago, foi realizado em 1967 por um grupo de artistas negros liderados por Bill Walker e correspondeu ao que James Foreman chamou de “a alta idade da resistência negra”, durante a luta pelos Direitos Civis nos EUA, quando os artistas estavam “nadando na superfície de ideologias da época”, sobretudo o racismo. Ele foi o pioneiro, foi dali onde partiram as principais passeatas e manifestações e foi a partir dali que a idéia de arte comunitária proliferou. Ele significou, sobretudo, um reclame por valorização da comunidade e de sua história.
Desde cedo o movimento muralista refletiu a estrutura do Movimento pelos Direitos Civis, seguindo o movimento pelos direitos democráticos entre “oppressed peoples” e pela “self –determination” para os Black Americans. O “Wall of Respect ensinava sobre heróis negros, conquistas e história – questões que estavam sendo incluídas nos livros escolares e em museus e galerias.
Depois dele veio o “Wall of Truth” que fazia uma crítica social, mostrando as doenças e pobreza, violência e assassinato do líder dos panteras negras Fred Hampton. Através destas duas obras, diferentes entre si, mostravam o caminho, a inspiração e o modelo de organização comunitária para outros artistas de Chicago que espalhou-se entre pintores predominantemente no black south-side, para outros bairros de grupos excluídos, entre 1968-70. Étnica de muralistas com base comunitária.
Houve uma explosão de trabalhos explorando temas afroamericanos, com designs e imagens da arte africana. No final de 1971, 60 murais tinham sido completados em Chicago e no final de 1975 perto de 200. Temáticas que vão do escravismo colonial a figuras dos trabalhadores, incorporando temáticas maiores, sobre self liberation, retratos dos líderes como Martin Luther King, Malcom X, sugerindo unidade entre os líderes negros. Como afirma Bill Walker: os artistas negros não precisavam imitar a arte do homem branco, ou Eugene Eda: queremos ter nossos próprios valores, potencializando nossas próprias experiências”. Os murais trabalhavam sobre temas como a “tensão racial e a unidade da raça humana”. Exs: Wall of Black, Love and Peace, Salvation: Wall of understanding, localizados em Cabrini-Green neighborhood.
A idéia de auto-estima e dignidade através do resgate da história e da espiritualidade emergiu e dominou a cena dos murais afroamericanos nos anos 80 e 90. Em 1985 o CMG se reorganizou em Chicago Public Art Group – CPAG, vindo se definir como um movimento de arte comunitária, expressando a diversidade de seus artistas e principalmente voltado para estratégias de trabalho voltados para a educação de jovens, com novas relações de colaboração e voltados para a revitalização de espaços públicos degradados através do gesto de criação coletiva, imprimindo na cidade a história dos grupos sociais que ali viveram e ainda vivem. O movimento muralista, ao longo de mais de 30 anos de existência, ampliou e diversificou o seu enfoque, de conflitos raciais para questões relacionadas à exploração do trabalho, afirmação da identidade, auto-valorização, ou mesmo, centrados em enfoques multiculturais. O presente projeto visa resgatar esta história e estabelecer comparações com o que vem ocorrendo no Brasil, sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

“Qualquer semelhança não é mera coincidência”: o HIV/SIDA no cinema de Moçambique
Doutorando: Esmael Alves de Oliveira
Orientadora: Dra. Ilka Boaventura Leite
Resumo: Ao propor como pesquisa uma análise do HIV/SIDA a partir do cinema moçambicano tenho o intuito de fazer uma análise sobre os modos como a epidemia passa a ser significada e “construída” sob a ótica do cinema contemporâneo daquele país. Neste sentido, optamos de modo particular por analisar a obra da cineasta moçambicana Isabel Noronha que nos últimos anos tem se debruçado em sua produção cinematográfica em retratar os impactos da SIDA no contexto local. Deste modo, tenho o intuito de problematizar acerca dos diferentes modos como a epidemia é compreendida e expressa nos filmes de Isabel Noronha e os aspectos e problemáticas nele contidos e que possibilitam a compreensão da epidemia para além de um discurso medicalizante. Assim, a idéia de que “Qualquer semelhança não é mera coincidência”, encontra eco na proposta desta cineasta moçambicana que vê na produção cinematográfica não apenas uma questão artística, mas, sobretudo, política e social, utilizando sua produção fílmica também como um material educativo.

 (em função de mudanças e atualizações do site em nova plataforma os dados anteriores a 2009 ainda não foram inseridos)